Ele olhou para baixo e não viu nada. Era como se nada se tivesse passado,
embora repetido infinitas vezes na sua cabeça. Voltava e voltava a
acontecer... insistentemente, e, numa amálgama de culpa e mágoa,
persistentemente, voltava àquele lugar maldito, onde tantas vezes foi homem,
Deus, superior, maior... onde se auto declarou o verdadeiro dono da sua
existência. Era o seu lugar de libertação, e ao mesmo tempo, o sitio onde,
para sempre, vendeu o seu ser, o seu Eu promiscúo, tudo o que tinha e que
podia dar. À frente, uma falésia. O mar bate insistentemente nas rochas,
dando ao ar um pouco de frescura humida, donando parte de si aos outros
seres, numa partilha incondicional e desinteressada. O vento passa
levemente, uma brisa apenas, que dá o tom da dança à relva esperançosa. E
ela baila com alegria, e sorri, e espelha o tom das estrelas que brilham,
unidas, num unissono de paz. As horas passam, as folhas deixam de ser verdes
e são pretas, o mar ao fundo é negro, adornado de !
branco ocasionalmente em explosões inconsequentes de raiva. David levanta-se
pela segunda vez da capota do carro, onde esteve sentado durante as ultimas
horas, fumando até à exaustão o ultimo cigarro. Abre a caixa vermelha de
Marlboro e suspira na inexistência de um ultimo animo. Aproxima-se mais uma
vez do penhasco. Olha para baixo. A lua oferece-se aos prazeres do oceano,
oferece-se, e recebe um narcistico reflexo, e assim se compreendem os
limites do universo, os opostos. Fundem-se, e são um só. Aperta contra si o
casaco de cabedal, mete as mãos nos bolsos dos jeans e sente a sua
resistência ao vento. Encosta-se ao velho Cadillac vermelho, olha uma ultima
vez o lugar, as árvores circundantes, quais opressores (ódio?), o oceano na
sua divinidade excêntrica, os espiritos inquietos que circundam todo o
cenário e abre a porta do carro. Entra, liga o rádio. Ainda está dentro do
leitor uma cassete de Joana, alguma coisa antiga. Carrega drasticamente no
eject, agarra nela e lança-!
a às garras maritimas. "splash" Arranca em direcção descendente, na direcção
contrária à lua simulada, pela estrada de terra, deixando atrás de si um
rasto de pneu, areia no ar e orgulho ferido.
embora repetido infinitas vezes na sua cabeça. Voltava e voltava a
acontecer... insistentemente, e, numa amálgama de culpa e mágoa,
persistentemente, voltava àquele lugar maldito, onde tantas vezes foi homem,
Deus, superior, maior... onde se auto declarou o verdadeiro dono da sua
existência. Era o seu lugar de libertação, e ao mesmo tempo, o sitio onde,
para sempre, vendeu o seu ser, o seu Eu promiscúo, tudo o que tinha e que
podia dar. À frente, uma falésia. O mar bate insistentemente nas rochas,
dando ao ar um pouco de frescura humida, donando parte de si aos outros
seres, numa partilha incondicional e desinteressada. O vento passa
levemente, uma brisa apenas, que dá o tom da dança à relva esperançosa. E
ela baila com alegria, e sorri, e espelha o tom das estrelas que brilham,
unidas, num unissono de paz. As horas passam, as folhas deixam de ser verdes
e são pretas, o mar ao fundo é negro, adornado de !
branco ocasionalmente em explosões inconsequentes de raiva. David levanta-se
pela segunda vez da capota do carro, onde esteve sentado durante as ultimas
horas, fumando até à exaustão o ultimo cigarro. Abre a caixa vermelha de
Marlboro e suspira na inexistência de um ultimo animo. Aproxima-se mais uma
vez do penhasco. Olha para baixo. A lua oferece-se aos prazeres do oceano,
oferece-se, e recebe um narcistico reflexo, e assim se compreendem os
limites do universo, os opostos. Fundem-se, e são um só. Aperta contra si o
casaco de cabedal, mete as mãos nos bolsos dos jeans e sente a sua
resistência ao vento. Encosta-se ao velho Cadillac vermelho, olha uma ultima
vez o lugar, as árvores circundantes, quais opressores (ódio?), o oceano na
sua divinidade excêntrica, os espiritos inquietos que circundam todo o
cenário e abre a porta do carro. Entra, liga o rádio. Ainda está dentro do
leitor uma cassete de Joana, alguma coisa antiga. Carrega drasticamente no
eject, agarra nela e lança-!
a às garras maritimas. "splash" Arranca em direcção descendente, na direcção
contrária à lua simulada, pela estrada de terra, deixando atrás de si um
rasto de pneu, areia no ar e orgulho ferido.
